Edgard Leuenroth
Fundou diversos jornais e colaborou em diferentes funções junto a tantos outros. Esteve envolvido com os periódicos O Boi, O Alfa, Folha do Braz, O Trabalhador Gráfico, Portugal Moderno, A Terra Livre, A Lucta Proletária, A Folha do Povo, A Lanterna, A Guerra Social, O Combate, A Capital, Eclectica, Spartacus, A Plebe, Romance Jornal, Jornal dos Jornaes, A Noite, Ação Libertária e Ação Direta.[3] Foi também fundador de diversas entidades vinculadas a imprensa, entre estas o Centro Typographico de São Paulo, a União dos Trabalhadores Gráficos, a Associação Paulista de Imprensa e a Federação Nacional da Imprensa.[4]
Em 1917 foi julgado e condenado como um dos articuladores da Greve Geral. Com o surgimento do Partido Comunista Brasileiro passou a ser atacado por Astrojildo Pereira, comunista ex-anarquista que tinha como meta ampliar a influência do partido através do controle e alinhamento dos sindicatos e dos meios de imprensa operários até então libertários, com a proposta autoritária bolchevique.
Foi responsável direto pela constituição de um dos maiores arquivos existentes sobre a memória dos movimentos operário e anarquista que hoje está sob os cuidados da Universidade de Campinas, levando o seu nome.[1]
Biografia
Primeiros anos
Edgard Leuenroth nasceu na cidade de Mojimirim, interior de São Paulo,[2] filho do médico-farmacêutico Waldemar Eugênio Leuenroth e de Amélia de Oliveira Brito. Sua mãe era sobrinha do Visconde de Rio Claro. Aos cinco anos de idade, após o falecimento de seu pai mudou-se com sua mãe e irmãos para a cidade de São Paulo.[5]
"Sai de Mogi-Mirim muito criança, guardando uma lembrança nostálgica da carinhosa nobreza com que fui acolhido, com meus irmãos, naquela saudosa chácara lá do morro, que minha avó recebera de seu tio Visconde do Rio Claro. Vim, com minha mãe e irmãos, para o Brás, onde sempre vivi, ligando-se àquele popular e movimentado bairro salientes aspectos de minha vida, alguns deles de magoada recordação de uma meninice sem infância."—Jornal Dealbar[6]
Sua família se mudou para o bairro paulistano do Brás, a época um dos mais populosos bairros operários.[3] Passando por dificuldades financeiras, aos dez anos de idade o jovem Edgard abandonaria os estudos e arranjaria um emprego como menino de recados e auxiliar de limpeza. Mais tarde trabalhou também como vendedor ambulante (caixeiro-viajante) de uma loja de tecidos pelo estado de São Paulo.
Contato com o Anarquismo
Em 1900 começou a freqüentar as reuniões do Círculo Socialista se interessando pelas reflexões propostas pelo socialismo.[5] No ano seguinte tem contato com o poeta libertário Ricardo Gonçalves que lhe apresentou os princípios da filosofia anarquista, atraindo-o para o movimento libertário do qual jamais se afastaria.[3][4] Na condição de operário tipógrafo e consciente da importância da associação de classe, fundou o Centro Typográphico de São Paulo, que um ano depois passaria a se chamar União dos Trabalhadores Gráficos e posteriormente Sindicato dos Gráficos.[4] Na ocasião fundou também o jornal O Trabalhador Gráfico que serviria como órgão de imprensa desta organização.
A greve de 1917
Como resultado da forte organização do movimento operário paulistano através de sindicatos de inspiração anarquistas e órgão de imprensa operária e tendo como precedentes uma série de greves parciais pelo aumento dos salários, comícios e piquetes, em 1917 estourou a Greve Geral na cidade de São Paulo. Através de suas colunas do jornal A Plebe Leuenroth não só demonstrou seu apoio a greve, mas assumiu para si a função de articulador desta.[4]
"Toda a imprensa o considera um sonhador, um utopista, desses que põem toda a sua alma na propaganda das idéias que um dia irão dominar o mundo inteiro."—O Estado de São Paulo sobre Edgard Leuenroth, 9 de Janeiro de 1918[4]
Em 9 de julho, uma carga de cavalaria foi lançada contra os operários que protestavam na porta da fábrica Mariângela, no Brás resultou na morte do jovem anarquista espanhol José Martinez.[7]Seu funeral atraiu uma multidão que atravessou a cidade acompanhando o corpo até o cemitério do Araçá onde foi sepultado.
"O enterro dessa vitima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da Cidade, sob um silencio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência. Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Policia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação (...) No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da familia do operário assassinado, foi realizado outro comício."—Edgard Leuenroth][6]
Sem que se possa precisar detalhes, verificou-se uma agitação entre a multidão estacionada nas imediações da avenida Rangel Pestana. Havia sido assaltada uma carrocinha de pão. Essa ocorrência teve o efeito da chispa lançada ao rastilho de pólvora. Parece ter servido ela de exemplo e estimulo para que a mesma ação fosse praticada em muitas partes da cidade. Feito que aconteceu com rapidez fulminante, como se um veiculo de comunicação de excepcional capacidade pusesse em contato todo o elemento popular paulistano.—Edgard Leuenroth[6]
Edgard Leuenroth, que naquele momento fazia parte do Comitê de Defesa Proletária, passara a ser considerado pelo aparato repressor estatal o mentor "psico-intelectual" da greve.[7]
"A Policia entrou em ação. Começaram os choques com as multidões. Dos encontros resultaram vitimas de ambos os lados. Os operários não se podiam reunir para tomar resoluções. Cada corporação lançava os seus memoriais de reivindicações, quase todas coincidentes, na maioria delas. Mas uma ação de conjunto, coordenada para a determinação do objetivo comum, não se tornava exeqüível no momento, devido à impossibilidade realização de assembléias sindicais. Foi então que se constituiu o Comitê de Defesa Proletária, resultante de uma reunião clandestina de militantes de várias categorias sindicais. Sua função não seria de órgão diretor para expedir palavras de ordem. Sua missão seria de um núcleo de relações e coordenador das reivindicações dos trabalhadores em agitação e privados de seus sindicatos e de seu organismo federativo."—Edgard Leuenroth[6]
Em meio ao caos das perseguições e cercos policiais aos grevistas, as dificuldades de reuniões e emissão das reivindicações e até mesmo tiroteios e saques Edgard Leuenroth junto a outros nomes do movimento operário anarcossindicalista paulistano organizam um enorme comício no antigo Hipódromo da Mooca.
"Foi indescritível o espetaculo que então a população de São Paulo assistiu, preocupara com a gravidade da situação. De todos os pontos da cidade, como verdadeiros caudais humanos, caminhavam as multidões em busca do local que, durante muito tempo, havia servido de passarela para a ostentação de dispendiosas vaidades, justamente neste recanto da cidade de céu habitualmente toldado pela fumaça das fábricas, naquele instante, vazias dos trabalhadores que ali se reuniam para reclamar o seu indiscutível direito a um mais alto teor de vida. Não cabe aqui a descrição de como se desenrolou aquele comício, considerado como uma das maiores manifestações que a história do proletariado brasileiro registra. Basta dizer que a imensa multidão decidiu que o movimento somente cessaria quando as suas reivindicações, sintetizadas no memorial do Comitê de Defesa Proletária, fossem atendidas. O término do comício teve o mesmo aspecto de que se revestiu o seu início. A multidão se desdobrava em numerosas colunas que se punham em marcha, de regresso aos bairros. Os militantes mais visados retiravam-se no meio de grupos espontaneamente formados. Soube-se mais tarde que, em pontos distantes do local do comício, haviam-se realizado varias prisões."—Edgard Leuenroth[6]
Ao fim do comício o Comitê de Defesa Proletária do qual Leuenroth fazia parte se reuniu para garantir que as reivindicações em formato de resolução fossem transmitidas ao presidente do estado, que entre outras demandas exigia a libertação de todos os operários do movimento que haviam sido encarcerados.
"A comissão de jornalistas era composta de representantes de jornais diários da Capital e o Comitê de Defesa Proletária, pelos seguintes elementos: Antonio Candeias Duarte, comerciário; Francisco Cianci, litógrafo; Rodolfo Felipe, serrador; Gigi Damiani, pintor, diretor do jornal libertário "La Bataglia"; Teodoro Municeli, diretor do jornal socialista "Avanti", e Edgard Leuenroth, jornalista, diretor do jornal anarquista "A Plebe" e secretário do comitê."—Edgard Leuenroth[6]
Atendidas as exigências a greve chegou ao seu fim.
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